16 de outubro de 2021

Susana Vieira diz que receita da felicidade está fora do casamento: ‘Tira o marido e bota quatro cachorros’

Prestes a voltar aos palcos depois de quase dois anos sem trabalhos artísticos, Susana Vieira interpreta no teatro uma mulher que vive na solidão de um casamento e decide viajar para a Grécia com uma amiga. No espetáculo “Uma Shirley qualquer”, que estreia nesta sexta no Teatro XP Investimentos, no Jockey Club do Rio de Janeiro, e também é uma comemoração pelos quase 60 anos de carreira, sua personagem fala com as paredes. Não é exatamente esse o caso da atriz, mas o fato é que ela gosta mesmo de falar com quem quer que seja. Define-se como conversadeira e foi até proibida por sua assessora de entrar no Twitter, já que ela mesma admite que não tem papas na língua. Tratando sua leucemia, a veterana de 79 anos ficou bastante reclusa até receber suas doses da vacina. Nesta entrevista, ela fala sobre o atual momento, de como se viu como Sônia, seu nome de batismo,de relações amorosas e do preconceito contra a mulher no Brasil.

Confira:

Acha simbólico que sua volta ao trabalho seja no teatro, o palco mais antigo do ator?

Saí de um quarto, onde fiquei um ano e dez meses, e fui direto para o teatro. Sabia que a Globo não ia usar o elenco de mais de 60 anos até termos uma normalidade a que não chegamos. Fiquei pensando como sair dessa frustração. Estava muito infeliz em casa, não via nada na minha frente. Achava que não tínhamos mais saída, que todo mundo com mais de 70 ia morrer. Minha sorte é que moro em um lugar muito alto, em que você vê toda a Barra da Tijuca lá de cima, o mar e a floresta. Comecei a falar com a mata. Tem uma pedra lá que me disseram que é Ogum, eu pedia ajuda para ele. Mas quem me refez mesmo foi minha família, que veio me visitar.

Mas já tinha feito essa peça em outra montagem, certo?

Fizemos em São Paulo, por três meses. Mas a trilha agora é do meu irmão, Sérvulo Augusto, que compôs especialmente para mim. Quando ele leu a peça, chorou muito. Ele morou com minha mãe por muito mais tempo do que eu e disse que o sonho dela era se separar do meu pai e ir para a Grécia. E ela nunca foi. Eu não sabia disso. É a primeira vez que eu e meu irmão trabalhamos juntos.

Você já chegou a falar com as paredes, como Shirley?

Moro sozinha, mas tenho seis funcionários. Conto tudo para eles. Se estou triste ou não, namorando ou não. Acabam sendo a minha família. E falo o tempo todo com os meus cachorros. Com as paredes, não. Sou muito introspectiva dentro de casa. Sou muito conversadeira para dar entrevista ou na Globo. Mas em casa, sou outra pessoa. Ainda não descobri qual é a verdadeira, deve ser a que mora na minha casa. Ela se chama Sônia (risos).

Fica dividida entre as duas?

Até pouco tempo, não falava isso. Na pandemia, vi a Sônia aparecendo. Porque eu já sou há 50 ou 60 anos a Susana Vieira. Há uns 20 anos, a Sônia sumiu. Entro em casa Susana e é ela no telefone, na novela, a que acorda com a Globo ligando… A Soninha quase não existiu. Mas a pandemia me afastou da fama, do meu nome na porta do teatro. Fiquei olhando a minha casa como dona de casa, vendo as coisas sujas… Porque como Susana Vieira não tem tempo de fazer, é oi e tchau. Virei a Soninha porque não tinha nenhum compromisso com a Susana Vieira. Não precisava estar bonita, arrumada, magra. Deixei ela engordar, eu tinha fome.

O que descobriu de especial reencontrando Sônia?

Foi como se eu fosse ela, uma desconhecida. Não recebia telefonema, ninguém falava da gente. Saímos das páginas dos jornais. Ela apareceu aí, e tive saudade do meu filho, da minha mãe, do tempo em que ela me dava banho, de quando eu era mãe do meu filho pequenininho. Chorei tudo o que eu podia. Me lembrei desse tempo. Essa parte que eu tinha deixado de lado. Encontrei uma foto com a Marieta Severo, Leila Diniz e Íris Bruzzi, na praia do Leblon. Nossa juventude foi muito feliz. Mas no Brasil, chegar aos 70 anos é uma vitória. A partir daí, tem que lutar contra todo o preconceito e contra quem tem horror de pessoa velha.

A peça também fala da solidão acompanhada. O que pensa?

Quando se é independente economicamente, dificilmente você passa pelo estágio da Shirley. Vim de uma família em que minha mãe já trabalhava quando nasci. Era livre, mas ficou num casamento que acabou, era um desespero se separar. Não só ela. Sei disso porque já estive em quatro. É difícil terminar um casamento tradicional brasileiro. Seja por medo, por não saber para onde ir, ou porque a mulher acha que vai ser desrespeitada, porque ela é! A mulher separada é desrespeitada, sim!

Sentiu isso com você?

Muitas vezes em que eu estava com marido e comprava alguma briga contra ele, diziam que eu tinha que ter cuidado, porque eu podia levar na minha cara. Mas acha que eu ia aguentar isso? Sempre fui corajosa para enfrentar o mundo. Nunca medi muito as consequências. Mas nunca nenhum homem encostou em mim. Quando eu vejo uma mulher que vai hoje à polícia, fico imaginando quantos anos levou para ela ir lá. Acho que se eu tivesse apanhado há 30 anos, não teria coragem. É muita vergonha ir para um lugar dizer que o homem que você escolheu está dando na sua cara. É muito difícil ser mulher. Mas acho lindo, é a mulher que leva o mundo pra frente.

Entre a solidão sozinha e acompanhada, qual é a pior?

Prefiro a solidão de um só. Tira o marido e bota quatro cachorros, você vai ser feliz o resto da vida. Pode ter certeza. Aí arruma um namoradinho aqui ou ali. Como homem faz. Eles descobriram isso e estão cobertos de razão.

Amizades ajudam?

Acho que todos nós ficamos mais sozinhos mesmo com amigos. Estou convidando vários para a peça. Fui ligar para a Vanessa Giácomo e a última ligação era de maio de 2020, não acreditei! Nesse tempo, eu não fiquei ligando, porque vi que não tinha o que falar. Era só coisa de pavor, de tristeza. Todo mundo quer ir na minha casa me visitar. Tenho menos saúde do que uma pessoa que não tem leucemia. Não posso me esquecer e dar mais chance para a Covid-19.

Quem são seus grandes amigos na vida?

A Arlete Salles acho que é com quem eu tenho mais intimidade no ambiente artístico. Tenho maior carinho pelo Mateus Solano e pelo Marcos Caruso. Mas meu maior amigo era o José Wilker. No meu aniversário, eram as primeiras flores que chegavam. José Mayer também. Das meninas, eu me dou com todas. Com Giovana Antonelli, Juliana Paes, Paolla Oliveira e Deborah Secco estou sempre no WhatsApp. A garotada curte o meu atrevimento, o caminho que eu abri.

Nos últimos tempos, a Globo tem revisto contratos. Como está a sua situação?

Estou felizinha, com contrato. Isso foi um susto geral. Como fui premiada de ter ficado, só agradeço. Meus contratos, que eram de quatro ou cinco anos, passaram a ser de dois. Hoje em dia, não tenho aquela certeza que a gente tinha: que era da Globo e top de linha. Sou tão dispensável como qualquer ator, não me acho indispensável. Tenho que me adaptar. Agradeço, porque paguei minha casa e pago aquela ração caríssima dos cachorros.

Sempre te perguntam sobre sexo. Acha que virou uma referência para mulheres?

Não entendo isso! Viu como eu tenho assunto? As mulheres sofrem preconceito. Já tive várias amigas famosas que falaram que não levam um namoro à frente quando se separam ou namoram um homem mais novo com medo de comentários, porque não sabem o que o filho e outras pessoas vão falar. E a imprensa é cruel com mulheres também. Não vejo ninguém ridicularizando homem mais velho porque tá com uma mocinha. Elas me perguntam como faz, como tenho coragem. Já sobre sexo, não sei por que me perguntam. Pegam no meu pé porque sempre namorei garotos. Cara de 30 ou 40 anos lá é garoto? Ah, vá!

Você está solteira. Mas está aberta a relacionamentos?

Depois da pandemia. Acha que eu vou botar minha vida em risco? Por um ano e oito meses não botei.

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